Textos e Textos

"Romance está morrendo rapidamente", diz Tom Wolfe


Buenos Aires, 4 mai (EFE) - O escritor americano Tom Wolfe assegurou este domingo (4) em Buenos Aires que "o romance está morrendo rapidamente" e considerou que, para o desenvolvimento do gênero, é necessário que os autores se dediquem à vida cotidiana."Estamos em um período no qual o romance rapidamente está morrendo, está se suicidando. Os jovens escritores dos Estados Unidos tentaram copiar (o escritor argentino) Jorge Luis Borges, mas não eram Borges", assinalou o autor, durante uma conferência em Buenos Aires.
Na conversa, realizada no Museu de Arte Latino-Americano de Buenos Aires, Wolfe considerou que os poetas "devem sair de seus quartos e averiguar as diferentes coisas que existem no mundo" porque assim "vão tropeçar com coisas que nunca pensavam que poderiam ver"."A não ser que saiam e as vejam, nunca as conhecerão. Os detalhes se encontram quando um se submerge na vida do outro", ressaltou."Nossas vidas estão cruzadas por nossas psicologias e pelo contexto social. As duas coisas são extremamente importantes", ressaltou o escritor e jornalista durante a conferência "Novo jornalismo: Uma conversa com Tom Wolfe".O autor de "A fogueira das vaidades" indicou ainda que o jornalismo "não vai morrer, embora as pessoas só leiam informações pela internet, ou seja, notas mais curtas"."Temos meios de comunicação elétricos há mais de 160 anos, desde o telégrafo até a internet. Mas todas as idéias importantes que mudaram os rumos surgiram da palavra impressa", destacou Wolfe durante a conversa, organizada pela Embaixada dos Estados Unidos em Buenos Aires. Ele ressaltou, no entanto, que muitos editores pensam que tudo tem que estar condensado, e advertiu que "há muitas revistas que acham que o Novo Jornalismo - que incorpora elementos da literatura - ocupa muito espaço, além de ser muito caro".Segundo Wolfe, o Novo Jornalismo contempla quatro pontos compostos pelos relatos cena por cena, o uso preciso do diálogo, a anotação dos detalhes e o ponto de vista de alguns dos personagens em cada cena."É uma definição muito técnica. Permanece dentro dos limites do jornalismo, mas utiliza os elementos que tornaram muito popular a literatura", assinalou o escritor, que chegou à Argentina para participar da Feira Internacional do Livro de Buenos Aires, uma dasmais importantes da América Latina.Neste sentido, o autor de "Eu Sou Charlotte Simmons" manifestou que "não há uma técnica para a crônica, mas sim uma atitude"."Não se aprende a ser cronista em uma escola de jornalismo. Se os senhores têm a informação que eu necessito, mereço que me dêem. Todos temos uma compulsão pela informação. E um cronista tem que estar disposto a abordar qualquer assunto", definiu.

Torquato Neto ou a Carne Seca é Servida

Emerson Araújo

Kenard Kruel é um destes intelectuais 24 horas de plantão. Nasceu para isso e para ser solidário com os amigos e azedo com os inimigos. Ainda bem que gozo da sua amizade há mais de 30 anos. Como eu disse para o Gervásio Santos (irmão dele) um dia desses: "Kenard Kruel é melhor do que um milhão de comunistas da esquerda fajuta".Quanto ao livro Torquato Neto ou a Carne Seca é Servida, sobre a vida e a obra do poeta piauiense Torquato Neto (ícone da geração 70), lançado último dia 14 (Dia Nacional da Poesia), no Espaço Arte do Nova Brisa, na Avenida Presidente Kennedy, com a presença do mundo intelectual piauiense, percebe-se o caráter sério da pesquisa e o texto de tom didático agradável de ser lido por todas e todos. Podem se servir desta bela leitura sobre o Piauí, Brasil e o Mundo, num painel de todas as épocas.
PS: Torquato Neto ou Carne Seca é Servida, Editora Zodíaco, 622 páginas, 30 reais, já se encontra à venda em todas as livrarias de Teresina (Des Livres, Universitária, Margarida, Piauiense, Universitária, Leonel França...) e nas principais bancas de revistas da Capital. Também pode ser adqurido por meio do e-mail: kenardkruel@yahoo.com.br, pelos fones (86) 8817 1179 - 9973 1879 ou 3220 3282 ou, ainda, acessando a página:
http://www.orkut.com/Scrapbook.aspx


Poeta Emerson Araújo, meu Amigão!

Kenard Kruel

Eu conheci o poeta Emerson Araújo quando eu ainda morava em Parnaíba, de onde eu sai em 1977, vindo para Teresíndia, após a minha expulsão do Colégio Estadual Lima Rebelo, quase na hora de concluir o Curso Técnico em Administração de Empresa, por conta de um poema (que, na verdade, não era meu) em "homenagem" ao diretor Alexandre (casado com a professora Cristina de Moraes Souza) e aos professores do referido educandário.Ei, ei, au, auvou sair do Estadualo diretor é o Alexandrebesta como ninguémpuxa-saco da Plautilaque é outra besta também.Ei, ei, au, auvou sair do Estadualtem um par de professoresnunca vi feder igualum é a Maria da Penhao outro e o Mister Bauer.Ei, ei, au, auvou sair do Estadualtem até motociclistalecionando nesta Escolaquem aqui chegou primeirofoi o boca de Sacola (professor José Maria Carrim).E, assim, por diante, cada professor, cada professora, com as suas inocentes estrofes...

Voltando ao assunto principal, minha casa era uma espécie de Casa do Caminho. Sempre de portas abertas para quem procurasse abrigo (com amor, ternura e paz) e uma mesa farta. Por lá passaram Ramsés Ramos, Wilton Santos, Fernando Costa (de saudosas memórias), Menezes Y Morais, William Melo Soares, Chico Castro, Beth Rêgo, Antônio de Deus Neto, Josemar Neres, Herculano Moraes, Francisco Eduardo de Moraes Lopes, Osmar Junior, Robert Rios, Renzo Ramos e Ana Lúcia, Garibaldi Ramos, José de Braga, Creuza Martins, Lizânia Brito, entre outros e outras.

Num artigo que escreveu, o poeta Emerson Araújo conta a seguinte passagem:

"(...) Lembro-me de um episódio inusitado aqui envolvendo a grandeza humana de Kenard Kruel que perdura até hoje.

Fomos contactados aqui em Teresina por um jornalista que depois se tornou acadêmico amigo de Mão Santa prefeito da Parnaíba neste tempo para ministrarmos uma palestra no litoral piauiense e lá fomos nós, eu, William Melo Soares, Francisco Eduardo Lopes, Rubervan du Nascimento e Menezes y Moraes quando chegamos lá o futuro acadêmico mais a respectiva esposa foram para as pousadas da Praia do Sol e nós Eu, William Melo Soares e o Eduardo Lopes, os mais lisos, ficamos ao léu, perambulando pelas ruas até encontrarmos Kenard Kruel e Elmar Carvalho (juiz de direito, atualmente) que acabaram socializando boa comida e boa cama na casa dos pais deles, dona Socorro e senhor Antônio de Souza Santos, e dona Rosálio e senhor Miguel Carvalho. Nessa época o pai do Elmar Carvalho era o diretor dos Correios em Parnaíba. Sou grato aos dois poetas até hoje (...)".Juntos, eu e o Emerson Araújo, aprontamos muitas e boas em Teresíndia. O poeta Emerson Araújo sempre foi e continua sendo um dos meus melhores amigos. É meu amigão, mesmo, do coração e da alma! Daqueles que, como dizemos, até debaixo d'água! Por cima de pau e pedra! Unha e carne!Eu tive a honra de trabalhar ao lado do poeta Emerson Araújo no Colégio Corujão, do professor Bartolomeu Ramos, onde ministramos aulas de literaturas brasileira e piauiense. Mas, mais do que isso, quando eu estava de folga e ele estava na sala de aula eu corria para lá, sendo mais um aluno atento aos ensinamentos do grande Mestre. Nunca vi tanta cultura, tanta inteligência e tanta humildade numa só pessoa.Eu tive o prazer de estudar com o poeta Emerson Araújo nas madrugadas da Universidade Estadual do Piauí, quando fazíamos o curso de Direito. Diversas vezes, envolvidos em nossas conversas mais proveitosas e cheia de emoções, deixamos de adentrar as nossas respectivas salas de aula (ele estudava dois semestres mais atrasados). Éramos dois perdidos entre os "doutores" e "doutoras" que ali transitavam (grande parte nossos ex-alunos). Poderíamos ter sido exemplos para eles e elas, porém o Direito sempre entrou torto pela porta das nossas vidas. Não tínhamos e nem temos vocação para os ossos do ofício. Estamos melhor no que sabemos e gostamos de fazer: Literatura.O poeta Emerson Araújo é autêntico, honesto, cumpridor de suas obrigações, sempre solidário e disponível para socorrer quem dele precise, sem hora, lugar e preço. Quando fui diretor da Biblioteca Pública Des. Cromwell de Carvalho, no segundo governo Hugo Napoleão, criei diversos cursos (Pré-Vestibular, Línguas, Português, Informática, Artes...), com a cumplicidade dele, que foi gentilmente cedido pela Secretaria Estadual da Educação para me auxiliar como técnico no assunto.O poeta Emerson Araújo, graduado em Letras, pela Universidade Federal do Piauí, é Especialista em Educação Profissional pela Faculdade Boa Viagem de Pernambuco. O nosso trabalho na Biblioteca Pública Estadual durou o segundo governo Hugo Napoleão todo, apesar dos pesares (e um dia contarei essa história toda). Pensei que o nosso projeto, de dar cultura e educação aos mais carentes, teria continuidade no governo petista do Wellington Dias: Ledo Ivo Engano!...O poeta Emerson Araújo, filho do gráfico Hiran Silva e de Rosa Feitosa de Araújo Silva, nasceu em Tuntum - Maranhão, a 11 de dezembro de 1958, mas é no Piauí, mais precisamente em Teresíndia, que ele se sente feliz há mais de quarenta anos. E nós também, por tê-lo aqui nesta terra querida, onde adubei o meu coração com a semente do sentimento mais puro (em lembrança ao poeta William Melo Soares).Publicou: Vendedor de Picolé, Topada, Companheiros de Estrada, As Pedras da Aurora, 16 Movimentos Acima da Escuridão. Participou da Antologia Baião de Todos, organizada pelo Cineas Santos. Organiza comigo duas antologias poéticas: 500 poemas de amor e uma canção encantada e Poesia de 1970: uma antologia antológica.Situando-o no tempo, o poeta Emerson Araújo faz parte da Geração de 1970 no contexto da literatura brasileira de expressão piauiense. Um dos mais atuantes dela, por sinal!


Então é natal

Para Alborino Teixeira, Aírton Araújo, Edmilson Araújo, Antônio Amaral, Antonio Pereira, Antônio de Pádua do Rego, Kenard Kruel, Bartolomeu Ramos, Francisco Marques, Sebastião de Souza, Jacinto Teles, Lande Muniz, Wellington Soares, William Soares, Adalberto Pereira, Gilney Viana e Renato Simões.

Emerson Araújo

Talvez não coubesse nenhuma frase a mais sobre os sete anos iniciais deste milênio, mas um pedaço de linguagem escondida sobre a jaqueta do cronista ditou as regras e estabeleceu um saboroso contato de vida e morte por estes rincões. Foi, desta maneira, que a palavra tornou o lume da estrada, a memória ofereceu neblina para as veredas.
Nenhuma neve rumorejou sobre as areias escaldantes do rio, nem sobre o concreto armado da penúltima sirene, porém se teceu a rede de cordas e plumas para abraçar o sopro no olho, o abraço das pontas do dedo.
E a crônica saiu.
Não se abandonou, até aqui, nenhuma trajetória, nem mesmo aquelas que se deixou de construir por falta de motivação premente. Acreditou-se em todos os passos, todos os sonhos neste tempo de violência e girassóis.
A tarde de sábado, agora, é minha diante da janela aberta e do pequeno mangueiral do quintal vizinho que esconde a parabólica e uma nuvem cinzenta que prenuncia a chegada do último natal.Estou aqui compondo esta crônica de agradecimento e saudação em clima de chuva serôdia que não quer deslanchar no horizonte. Nenhuma lembrança impõe saudade, nem dor no pensamento, mas o Piauí é outro, Teresina ainda é menina a se deflorar pelas barrancas ou no barco de encanto no encontro das águas em lua a pino no Poti.
Sou dureza e metáfora na frase, mas não desisto de oferecer licor e vinho, pão asmo e azeite para os grilhões de um novo sofrimento, de uma nova armadura que rola nas palhoças que circundam o verde que te quero vermelho em foice e feixe para o sorriso infanto, para a vanguarda de alfazema e alecrim que escorre no bojo juvenil das meninas.
Então é natal e a festa se tornou cristã entre estrelas e beijo de névoa nas manhãs.
A chuva surgiu e bolinhas de gelo penetraram na janela.
Meus sapatos aceitaram algodão e espiga e o canto soprano dos passarinhos brindaram em címbalo a alvorada, o odor de terra molhada e o estrume dos currais.
Então é natal e a festa se tornou normal, apesar da conotação de fim, vicejo todos os começos neste temporal que se derramou sobre os oitis das praças, as acácias de muros paralelos sem nenhum ideaE a crônica saiu meio encabulada, pessoal, intransferível como papel de seda a sacudir as pipas de inverno, os ceróis de cada traço e os cordéis da minha efusão lírica de criança.Sou assim, sem novos secretos dentes a desfiar naco de carne fresca no umbral deste bairro de convivência operária, a ouvir os rojões cotidianos de inigualáveis comemorações madrugada adentro, sol abaixo.Então é natal, a festa que se tornou cristã me impôs gradualmente o locus horrendus do quarto.


A literatura Brasileira de Autores Piauienses na década de 70 por dentro

Emerson Araújo

Em memória de Torquato Neto, Paulo de Tarso Moraes, Paulo Veras, Ramsés Ramos, Wilton Santos e Zemagão.

Para Menezes Y Morais

I – INTRODUÇÃO

Não há nenhuma novidade em se afirmar que a produção artística de uma sociedade, em uma determinada época, deve refletir todos os contextos plenamente postos no bojo dela.

Mediante isso, no Piauí, como no resto do país, a literatura de 70 (enquanto manifestação artística) assumiu várias nuances dentro dos diversos contextos desta época e foi, acima de tudo, uma ferramenta eficaz de combate semântico/comportamental a repressão política e a falta de liberdade de expressão praticados de forma brutal pela ditadura militar de 64.

Feita às ponderações iniciais; refletiremos ainda sobre a necessidade e a importância da Literatura Brasileira de Autores Piauienses da década de 70, colocando o testemunho de quem esteve envolvido por dentro da produção literária deste período.

Por fim, a Literatura Brasileira de Autores Piauienses da década de 70 teve dois pólos de construção artística bastante visíveis:

1) de um lado, os produtores da segunda metade dos anos 60 que continuaram a atuar, ainda, ao longo do período em destaque com textos de conteúdos existenciais e de formato acadêmico, distanciado do momento político vigente.

2) e, de outro lado, a produção literária de um grupo de jovens originários dos bancos escolares, de uma parte da imprensa local e de militantes do movimento social que timidamente voltava a atuar por ingerência, principalmente, da Igreja Católica.

É no segundo pólo da produção literária piauiense da década de 70 que focaremos as nossas reflexões e os relatos testemunhais a partir de agora.

II – A POESIA É NECESSÁRIA

Sem ter um projeto estético para a produção literária, os novos escritores piauienses da década de 70 fizeram uma opção preferencial por “aquilo” que eles consideravam poesia.

Esta modalidade literária esteve à frente da criação artística deste período, servindo como arma de combate e, também, palanque de resistência contra as práticas autoritárias da ditadura militar.

A poesia piauiense na década de 70 desarticulada na forma poética apontava para o semântico, refletindo as tensões existenciais, filosóficas, políticas, ideológicas e estéticas de um contexto de repressão absoluta contra as manifestações de todas as matizes. Aqui, ainda, há de se destacar que este tipo de produto literário, também, às vezes, escapava do controle dos militares repressores por apresentarem uma variedade de canais para sua veiculação graças a anuência do mimeógrafo e da vontade de liberdade dos seus emissores.

Os bares, os ônibus, as filas de cinema e bancos, a militância noturna tornaram os espaços referenciais para a divulgação conteudíticas dos poetas-combatentes contra o autoritarismo, a delação, a ausência de todas as liberdades e a favor dos oprimidos políticos e sociais de então.

Poesia necessária posta a corroer os anos de chumbo, a ajudar a restabelecer a democracia e a liberdade de todos.

III - O POETA É O COMBATENTE


É verdade que o ser humano está sempre a procura do bom combate. Aqui o ser humano é o poeta piauiense da década de 70 e o bom combate à luta contra a ditadura.

Oriundos das escolas, da imprensa de resistência e do movimento social que se restabelecia na calada da noite, os poetas piauienses se tornaram combatentes de primeira ordem a metralhar, no bom combate, a tirania militar implantada em 64.

Por isso, que a palavra acabou virando projétil e não projeto estético, ressonância oral de contestação e não metalinguagem. Mesmo assim, este combatente de todas as horas e em todas as militâncias exercitou em folha de caderno, umbral de banheiros e alto-falantes de plantão, o ofício aristotélico da arte e a regra maiacovisquiana do poema-panfleto, do poema-combate (já postos em 1922).

Não restam dúvidas que foi, também, com a contribuição deste “guerrilheiro verbal” nas paradas de ônibus, nas filas dos bancos e cinemas, nos recitais, nos comícios relâmpagos, nos botequins que o tempo de chumbo se transformou em campo de pétalas vermelhas e a banda de todos os descontentes pode passar.

IV - TERESINA É O CAMPO DE PÉTALAS VERMELHAS

Teresina não era diferente das outras capitais na década de 70. Vivendo sob a égide da tirania militar as algarobas e os oitis não floresciam mais. As atitudes comportamentais eram refletidas nas ruas sem movimentação, Teresina em silêncio sob as sirenes de Astrogildo e Evangelista. Mas a noite ainda detinha as suas entranhas, a emblemática necessidade de reagir.

Os bares nos campos operários reabilitavam o brilho que a aurora escondia: e a decadente paiçandu dava, também, o tom de todas as liberdades possíveis, todas as necessidades impossíveis. Sem falar nas barrancas do Rio Poti e nem na travessia de outros Lucínios rumo a Timom, sem menosprezar, ainda, as livrarias do seu Nobre, do “Vigia” Antônio Nobre, no final da tarde, onde se reuniam O. G. Rêgo de Carvalho, Didácio Silva, Herculano Moraes, Cineas Santos, Rubervan du Nascimento, Kenard Kruel, J. Miguel de Matos, Francisco Miguel de Moura, Albert Piauí, Paulo Machado, William Melo Soares, Clidenor de Freitas Santos, Pedro Celestino de Barros, Magalhães da Costa, e a Punaré, do casal Antônio José Medeiros e Ritinha Cavalcanti, que teimava em esconder a sua personalidade jurídica. A Punaré dos estúdios do Albert Piauí e Fernando Costa e da Escola de Dança do Beto Pirilampo, depois da desfeita de sociedade com o grupo empresarial da Corisco, o Milton, José Gonçalves e o Arthur, sem deixar de falar do quixotesco Cineas Santos, hoje da Oficina da Palavra.

Bares, Paiçandu, Livrarias - espaços de paranóia e de discussão para se derrubar a ditadura dos milicos. Tudo isso regado a caipirinha de vodka torresmo ofertado por Chico do Acauã, filho da dona Candinha, mãe da poetisa e produtora cultural Marleide Lins Albuquerque.

Tempos de chumbo onde se via a cidade de um lado a outro construindo trincheiras que desembocaria mais tarde no PC do B, PT, PDT, PSTU, PSOL, PCO, Comitê Bolivariano, Militância Socialista (esquerda desunida sempre) e Teresina tornando um campo de pétalas vermelhas nas “tira-colos” dos poetas e na semântica raivosa dos seus escritos.

V – CONSIDERAÇÕES FINAIS

Voltamos à Literatura Brasileira de Autores Piauienses da década de 70 para confirmar a falta de projeto estético plausível nos textos. Apenas à vontade de insurgir contra o mundo. Este estava ali, depois da janela das nossas casas, de nossos bares. E o exercício proveitoso da palavra em umbrais das portas e lapelas de outros meninos que viviam. Mesmo assim tantos tombaram no meio da rua, outros foram tragados por uma apitada de sol em papel de seda, outros travaram a palavra de vez e morreram, mudando de lado, tornando novos ditadores atrás de escrivaninhas depressivas. Contudo, outros apostaram no ofício assecular de levantar estrelas e ofertar um ramo de acácias e um feixe de pétalas para a linguagem como projeto de possibilitar as algarobas e os oitis de Teresina todas as flores possíveis.


O spleen pós-moderno ou o tom da dissonância

Emerson Araújo

Vou me dar o direito de escrever algumas considerações antecipadas sobre o livro Torquato Neto ou a carne seca é servida pesquisa / crítica ampliada do jornalista / poeta / pesquisador / crítico /professor / bacharel em direito Kenard Kruel que será lançado no dia 14 de Março (Dia Nacional da Poesia) às 19 horas no espaço Nova Brisa, na Avenida Presidente Kennedy, em Teresina, por três motivações pessoais que passo a listar: a primeira, kenard Kruel tem sido um dos raros amigos leais que tenho durante estes trinta e poucos anos de convivência fraterna; a segunda, é porque li o texto gerador desta pesquisa / crítica publicado em 2001 pelo Instituto José Eduardo Pereira em opúsculo com prefácio de Paulo José Cunha e dedicados aos poetas Paulo Machado e Ramsés Ramos (este último em memória), também, amigos e irmãos e a terceira, é que esta pesquisa / crítica ampliada reafirma, de vez, todas as importâncias estéticas ou não do piauiense Torquato Pereira de Araújo Neto no contexto da cultura brasileira a partir da segunda metade dos anos sessenta e nos idos iniciais dos anos setenta com repercussões até hoje.
Conheci Kenard Kruel em 1977 quando fiz chegar até ele um livreto de textos de minha autoria intitulado Vendedor de Picolé. Ele era assessor de comunicação do Centro Colegial dos Estudantes Piauienses e já dava os seus primeiros passos no jornalismo teresinense, como revisor dos jornais O Dia e O Estado. Tinha tido passagem na imprensa estudantil em Parnaíba, de onde foi expulso do Colégio Estadual Lima Rebelo, quando terminava o Curso Técnico em Administração de Empresa, por conta de um poema em “homenagem” aos professores e diretor da escola. Editava ele, com a cumplicidade da Flora, esposa do conselheiro do Tribunal de Contas do Piauí Olavo Rebelo, que era secretária do Colégio Estadual Lima Rebelo, o Batalha do Estudante. Kenard Kruel passou dois anos sem poder estudar, até que passou no Vestibular para Letras, depois de noites de farra, com William Melo Soares, Josemar Neres, Menezes y Morais, Albert Piauí, Eduardo Lopes, entre outros irresponsáveis, no bar em frente ao colégio que faria as provas, localizado ao lado da extinta LBA, próximo ao Ginásio Esportivo Dirceu Arcoverde, o popular Verdão.
Em Teresina, assim que chegou, passou a editar o Cobaia, o primeiro a ter no seu subtítulo a expressão “periódico marginal”. Depois, trabalhou em todos os jornais de Teresina, chegando ao cargo de editor chefe no Jornal da Manhã e Correio do Piauí. Foi presidente do Sindicato dos Jornalistas (três mandatos), diretor da Federação Nacional dos Jornalistas - FENAJ e membro da Federação Latino-Americana de Periodistas - FELAPE e da Organização Internacional de Jornalistas – OIJ.
Kenard Kruel já chegou, aqui, participando das baladas culturais de então, posto que, mesmo em Parnaíba, ele aprontava as suas e estava sempre antenado com as pessoas e os acontecimentos da Capital. Bons tempos aqueles apesar da repressão ferrenha da ditadura de 64. Conseguíamos combater os milicos repressores e seus representantes, aqui no Piauí, de frente, éramos subversivos e não sabíamos.
Lembro-me de um episódio inusitado aqui envolvendo a grandeza humana de Kenard Kruel que perdura até hoje. Fomos contactados aqui em Teresina por um jornalista que depois se tornou acadêmico amigo de Mão Santa prefeito da Parnaíba neste tempo para ministrarmos uma palestra no litoral piauiense e lá fomos nós, eu, William Melo Soares, Francisco Eduardo Lopes, Rubervan du Nascimento e Menezes y Moraes quando chegamos lá o futuro acadêmico mais a respectiva esposa foram para as pousadas da Praia do Sol e nós Eu, William Melo Soares e o Eduardo Lopes, os mais lisos, ficamos ao léu, perambulando pelas ruas até encontrarmos Kenard Kruel e Elmar Carvalho (juiz de direito, atualmente) que acabaram socializando boa comida e boa cama na casa dos pais deles. Nessa época o pai do Elmar Carvalho era o diretor dos Correios em Parnaíba. Sou grato aos dois poetas até hoje.
O engraçado é que o futuro acadêmico só apareceria dias depois em Teresina com a cara limpa e a pele bronzeada. A amizade fraterna com Kenard Kruel continuou depois no curso de letras da UFPI e mais tarde na militância cultural da cidade verde, sem esquecer que fomos companheiros no Colégio Corujão, do Bartolomeu Ramos, onde ministramos aulas de literaturas brasileira e piauiense, e nas madrugadas da Universidade Estadual do Piauí, quando fazíamos o curso de Direito. Kenard Kruel se formou há três anos. Eu, em breve, recebo o canudo de bacharel em Direito.
Há poucos dias pelo MSN disse ao Gervásio Santos (um dos irmãos do Kenard Kruel) que “ele” é melhor que um milhão de certos comunistas e acadêmicos juntos.
Deixemos, agora de lado, as reminiscência e rasgação de sedas e foquemos mais sobre Torquato Neto ou a carne seca é servida que será lançado no dia 14 de março, a partir das 19 horas, no Espaço Arte do Nova Brisa. O livro tem 662 páginas, ricamente ilustradas com fotografias que foram publicadas ao longo desse tempo e algumas saídas fresquinhas do baú do Dr. Heli Nunes, pai de Torquato Neto, que se encontra com quase 90 anos de idade, dono de uma lucidez invejável, além de um grande poder de locomoção. Ele reside, atualmente, em Picos, mas sua presença é constante em Teresina e nas demais cidades do interior. Viaja a negócio, mas mais por prazer. Ele é, como diria Mário de Andrade, um eterno turista aprendiz. É um dos espíritas mais antigos do Piauí e do Brasil.
Passeando pelas páginas do livro, teremos, na primeira parte, os dados biográficos, em seguida os poemas e as canções de Torquato Neto (que fariam parte dos livros inéditos O Fato e a Coisa e Pesinho Pra Dentro Pesinho Pra Fora), a sua fortuna crítica, uma das maiores do Piauí, três entrevistas que ele concedeu para a imprensa alternativa de Teresina (Durvalino Couto Filho e Paulo José Cunha – página Comunicação do jornal Opinião, do Petrônio Portella, dirigido pelo professor Camilo Filho, com secretaria por parte de Evandro Cunha e Silva; Walda Neiva e Marcos Igreja – jornal A Coruja, dos alunos da Faculdade de Filosofia do Piauí, em maio de 1971, e Menezes Y Morais – página do suplemento dominical do jornal O Dia - Domincultura, a 18 de junho de 1972, além de um artigo que Torquato Neto escreveu aos 20 anos no jornal O Dia, sob o título A arte e Cultura Popular (2 a 25 de fevereiro de 1964), em que ele, com propriedade, faz uma revisão crítica das obras de Gilberto Freyre, José Lins do Rêgo, Graciliano Ramos, José Américo de Almeida, Rachel de Queiroz, Jorge Amado, dentre outros da literatura brasileira de expressão nordestina. Não deixar de citar as cartas que ele escreveu para diversos amigos e amigas, entre os quais o ex-radialista Aderbal Tomaz de Aquino e Raimundo Magalhães, empresário musical, em que fala do seus projetos, da sua vida de “merda” e do seu amor pelo Piauí. Por fim, toda a Bibliografia e Discografia de Torquato Neto.
Em princípio, acreditamos que esta obra deva manter a linguagem didática prazerosa do texto gerador publicado em 2001, pois o seu autor é um “craque” que sempre nos tem brindado livros que unem a informação jornalística abalizada fruto da militância jornalística cotidiana com o pedagógico-didático exercitado esporadicamente em salas de aulas.
As obras de Kenard Kruel destinam-se tanto ao leitor comum como ao meio acadêmico / educacional carentes de boas leituras sobre a cultura brasileira de expressão piauiense. Os escritos kenardianos dos últimos anos refletem isso: linguagem jornalística instigante associada à estrutura pedagógica do ambiente acadêmico / escolar e como fonte de pesquisa, também. A nossa convicção, em razão destes pressupostos, é que Torquato Neto ou a carne seca é servida será um sucesso de venda e crítica com certeza.
Por fim, o tema Torquato Neto ainda não se esgotou ainda para nós brasileiros / piauienses, figura emblemática de todos os tempos, este piauiense ultrapassou os rincões para se colocar no âmbito do universal e do pós-moderno em nível de comportamento e proposta estética, rubricando de forma incisiva e clara todas as cogitações possíveis e impossíveis da vida pessoal. Sem querer levantar “teses” temos a audácia, ainda, de dizer que Torquato Neto foi um spleen pós-moderno e que deu, também, o tom da dissonância para todos os horizontes, inclusive para aqueles que se postaram além das soleiras das nossas casas ou no bico de gás numa trilogia conflitual de amorxvidaxmorte. Outra convicção premente: Torquato Neto não foi, é assim, por isso, que Kenard Kruel, com o seu Torquato Neto ou a carne seca é servida, faz bem em reabilitá-lo para o rol do nosso interesse cotidiano. E mais ainda: “tô doido” para comprar esta versão ampliada na livraria da próxima esquina.


Minha resposta ao contista Airton Sampaio de Araújo



Meu bom Aírton Sampaio, a esquerda/esquerda(a não fajuta) cabe sim num fuscão vermelho. Quanto ao meu texto, longe de polemizar, ele toca em algumas posturas culturais e políticas daquele tempo. Você deve convir comigo que o não burocratismo de plantão daquela época não pode ser confundido com estética. A nossa geração foi política sim e exercitou algumas nuances de linguagem, só isso, e no mais não tínhamos o palanque, mesmo porque não precisávamos dele para nada, tínhamos o texto como exercício semântico/político. O estético veio após. Todos nós, digo os que ficaram, de uma forma ou de outra, acabaram priorizando a relação conteúdo-forma o que não se fez durante a geração 70 de forma consciente e clara. Reafirmo que a geração de 70 foi política no conteúdo, no comportamental e no exercício da linguagem. Foi revolucionária, também, por isso e por acreditar que estava fazendo arte literária. O meu texto, meu bom Aírton Sampaio, é apenas um registro testemunhal, não fechado e em construção. Acredito, ainda, que eu, você, Paulo Machado, Rubervan du Nascimento, Chico Castro, José Pereira Bezerra, Zé Magão, Chico Castro, Marleide Lins Albuquerque, Manoel de Moura Filho, João Luiz do Nascimento, William Melo Soares e tantos outros somos o melhor resultado deste exercício semântico/político que se fez linguagem a partir da década de 80. E sou grato, meu bom Aírton Sampaio, a esse exercício de arte revolucionária da nossa geração. O Governador e seus assessores de plantão não tiveram nem na militância cultural e nem na militância política daqueles anos, ainda bem. O que nos entristece é, infelizmente, reconhecer que a esquerda fajuta nasceu ali nos palanques que não eram nossos e Graças a Deus, por isso. Minha solidariedade a família contra os ataques a uma educadora do naipe da Professora Tânia Sampaio feita por fascistas enclausurados na esquerda fajuta.

Um comentário:

Airton Sampaio disse...

Querido Emérson. Compareço ao seu blog para divergir de sua análise reducionista da Geração de 1970. Digo reducionista porque segue a onda dos que, olhando-a pela superfície, não vê nela dimensão estética importante, mas apenas engajamento político contra a ditadura. É certo que panfletos, que se diziam mas não eram literatura (é bom distinguir)existiram, porém havia literatura que, logo, não era panfleto. A Geração de 1970 fez as duas coisas, panfleto e literatura, e fez literatura sob um projeto estético, que só não existe para quem espera um documento sistematizado numa espécie de relatório burocrático. Mas o que era a decisão de praticar uma linguagem coloquial senão uma seqüência de 1922, cujas conquistas se viram ameaçadas pelos reacionários de 1945? Atitude estética, é claro! Que era a decisão de libertar a literatura dos livros e levá-la para camisetas, banheiros, feiras-livres? Só combate à ditadura é que não era: atitude estética! Que se fez com o conto piauiense, outrora prenhe de um regionalismo tacanho, urbanizando-se-o, verticalizando-se-o e operando-se mais sobre o significante que sobre o significado, então isso não foi primordialmente atitude estética e sim mero combate à ditadura? Por favor, amigão Emérson, sem esses reducionismos, que isso mais confunde que explica. Abração!