segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Reformulando o blog

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O blog está passando por uma reformulação visual. Aguarde!

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Partiu!

Partiu!

Hulton Archive
Jeanne Moreau(+) - Atriz francesa

sábado, 29 de abril de 2017

BAIÃO DE TODOS: POETAS REPENSAM A VIDA, NUM DIÁLOGO CIVILIZATÓRIO



por Menezes y Morais *

O poeta William Carlos William (1883-1964) assegura: “Os poetas enxergam com os olhos dos anjos”. Poeta, criador de Arte, é construtor, lapidador de civilização, nos assegura o conceito antropológico de cultura. Os 48 poetas reunidos em Baião de Todos (poesia, 2016) mostram isto em seus discursos poéticos.

A dicção poética questiona e repensa a Vida. Os poetas dialogam entre si, questionam a civilização, repensam a Poesia, a sociedade, o País, o mundo. O diálogo entre poetas, a reflexão sobre a sociedade moderna, o engajamento político, são temáticas perenes entre os Poetas dignos deste nome.

A Poesia não é feita apenas palavras – para lembrar os poetas Stéphane Mallarmé e Paul Valéry, no final do século XIX e início do século XX – mas, sim, de palavras com significados e significantes – para lembrar São Tomaz de Aquino, in Confissões (sua biografia, escrita por volta do ano 400 da nossa era).

TEMA TABU?

A segunda metade do século XX provou que se faz Poesia sem palavras. Neste surpreendente século XXI a Poesia parece regressar exclusivamente à carpintaria da palavra, depois que todas as vanguardas ficaram datadas, como, por exemplo, entre nós, a Poesia Concreta, Neoconcreta, Poesia Práxis.

No retorno à palavra, a Poesia também é feita de ideias (sem cair no panfletismo), de propostas lúdicas, de críticas civilizatórias, gritando alto ou sussurrando (em suas imagens e metáforas) em nome da Vida: todos os temas cabem no poema. Da dor ao prazer, da civilização à barbárie. Enfim: o Poeta fala de Poesia, da sua e da nossa humanidade.

UM POUCO DE CADA UM

Baião de Todos (2016) começa com Adriano Lobão Aragão, que remete o leitor às Sagradas Escrituras: “Estando Ruth posta em tormento em meio ao trigo alheio”, num poema de suave beleza estética. Aragão também é blogueiro.

Na sequência, Alcenor Candeira Filho, que o tempo consagrou mestre do fazer poético, em minha opinião. Sua temática vai do metapoema (Teoria do Poema), à morte, à vida, se revelando em plena maturidade estética. Depois, a jornalista Ananda Sampaio, de que nos ficou as imagens:

“Horas que acumulam dias”, “Roendo um dia/ que não quer acabar”, e “O homem clama por um sinal divino”. Ananda também nos remete à Bíblia – “aquele preso dentro da baleia”, (o profeta rebelde Jonas). A poeta fecha com Náufrago, um poema perfeito.

RUA DO POETA

Na sequência, Caio Negreiros. Ele tem, entre outros, um livro com um bom título (A Decadência das Horas). Caio também é fotógrafo. O poema dele não tem título, mas uma imagem bonita – “uma gota de sol” – e ao final acena à solidão urbana e universal, remetendo o leitor ao poeta Carlos Drummond de Andrade – “não é rima ou solução”. Da poeta Carmen Gonzáles, nos sensibilizou o poema Estrela Guia.

Carvalho Neto, outro poeta esteticamente amadurecido – também é odontólogo e letrista – salpica o tema “rua”, ofertando imagens como “amor inquilino”, “minha rua é do tamanho da saudade”, “minha rua, universo de dor contida”, para desaguar no poema Estação: “na velha estação, aguardo / o bilhete desbotado/ da viagem que não fiz”. Meu amigo Carvalho Neto é um poeta que publica com regularidade.

ALÉM-FRONTEIRA

O poeta seguinte é Chico Castro, também professor, ensaísta e historiador. Chico Castro tem dois belos poemas que se somam ao enriquecimento estético de Baião de Todos: Dallas para que te quero, e Trapo Chique. Além de Chico Castro, um nome conhecido nacionalmente, a letra C tem mais nomes da literatura piauiense que ultrapassaram as fronteiras (literárias) nordestinas. Por exemplo, Cineas Santos.

São de Cineas os poemas Desobediência Civil, Consulta, Convalescença e a obra-prima Poema Inevitável. São poemas dignos deste nome. Deixaram em mim as imagens: “Meu pai me queria lavrador / adubo na semente do seu chão (...) eu queria ser o vento/ pra bolinar o teu corpo”. “A linha principal não leva a nada/ (...) esta linha transversa me leva a você”. “Há muito não se houve meu uivo lancinante/ varando a madrugada”.

Climério Ferreira é outro nome nacional. Ele brinda o leitor com os poemas Pássaro Perdido, Eu sou meu próprio universo, e O Choro da História. Climério (Cli, assim o chamava a eterna Nara Leão) também é compositor, cantor, letrista e professor. O Brasil agradece.

SURPRESAS 

Uma surpresa para mim, entre os poetas piauienses que ainda não conheço pessoalmente, é a cantora, compositora, produtora cultural, Cláudia Simone: fala em “colchão de sonhos”, indaga “Quem foi que masturbou minha inocência?” E afirma: “A vida se encarregou de mostrar / que o amor nunca acaba onde deveria estar”.

Cyntia Osório encerra o índice da letra C. Dela, me ficaram as imagens: “Passeei pelo labirinto do tédio”, no “andar de quem tem asas”, “Existir é infinito”, imagens que marcam Penduricalho, um belo poema. Outra imagem de Cyntia Osório: “5 mg de desejos brancos para o cansaço”. A poeta também nos brinda com o belo Deslugar.

Outra surpresa é Demetrios Galvão, professor e historiador. Recanto é um poema perfeito. Em cine-mirante ficou-me a imagem “um olho filmando tudo”.

Em tempo: ganhei (como diria mestre Manuel Bandeira) o poema Cinema do Olho, musicado por Carlos Bivar Eduardo, com o qual fomos contemplados com um Prêmio SESC de Música 2007.

Demetrios Galvão nos brinda ainda com imagens como “liturgia de campo arrasado”, “exporta desertos”. O poema “a previsão do tempo é uma falácia” é um dos melhores deste Baião de Todos.

SEM GORGULHO

A letra D encerra com Diego Mendes Sousa, poeta da nova geração que usa as redes sociais para divulgar a literatura brasileira. Tinteiros de Mágoa é um poema perfeito, dividido com os títulos de tinteiros: da angústia; dos desertos, e do estranhamento. Evoé, Diego!

Ednólia Fonteles é outra poeta que se me revela em plena maturidade estética. Baião de Todos tem quatro poemas dela numerados com o título Quase Poema, um metapoema perfeito, sem gorgulho. Ednólia Fonteles deve ter um balaio de poesia inédita. Beijo, Ednólia.

Do amigo poeta Elias Paz e Silva ficaram-me a imagem “minha mão escreve / (no esgoto da cidade) / um poema tão grande / como a esperança”. E no poema Proposta, também sem gorgulho: “O dia foi duro amor / mas valia o suor da labuta / e a proposta de outro sol / como desculpa”. Lindaço, Elias.

NEGRITUDE

O também professor, o poeta e meu amigo Elio Ferreira traz o universo africano da “América Negra”. Tem o seu excelente (recitado por ele, com jogo de cintura e dicção bibopeana e onomatopaica) Abracadabra, de cujas imagens, fortíssimas, seleciono: “meu corpo apodrecendo no esgoto”, “meu corpo apodrecendo a céu aberto”, “você quer me ver no lixo”, e “teu corpo apodrecendo numa vitrine virim”.

O também juiz de direito Elmar Carvalho, meu amigo, nos oferece A Ero Moça, Noturno em Campo Maior, Perdição, e Sex-Appeal. Elmar Carvalho é fiel à proposta dos modernistas de 1922: precisamos conhecer o Brasil (no caso dele, o Piauí, Campo Maior, onde nasceu). H. Dobal, que também fixou paisagens campo-maionenses.

O meu amigo jornalista, poeta e professor Emerson Araújo é vida que segue: nos fala de “metáfora de plantão” (poema Novo Achado), faz metapoesia (Nova poética) e desagua em Junho em meu oficio, que me parece um poema sem gorgulho. Emerson tem vários livros publicados, entre os quais Címbalos, lutas e olhares (poesia, 2015).

Na nova safra de poetas está Ernâni Getirana, mistura o substantivo belicoso “guerrilha” (que seduziu muita gente boa no século XX) com o metapoema de Drummond (“lutar com palavras / é a luta mais vã...) no poema (es) talo, e nos apresenta Encontro, um poemeto perfeito.

GERALDO BORGES

O poeta Fernando Ferraz homenageia Cineas Santos in “Poesia como alimento”. Ele também nos brinda com duas pérolas poéticas: Ipês de Maria, e Teus Olhos. Depois dele, surge o também contista, cronista e historiador Geraldo Borges, outro escritor que se encontra em plena maturidade estética.

Os quatro poemas de Geraldo Borges também são termômetros da qualidade estética da coletânea: Viagem, Rio 1, 2 e 3 (sonetos). Nas quatro peças poéticas, Geraldo Borges transfigura lembranças de infância, e louva o nosso mítico, querido, maltratado (porém amado pelos poetas) rio Parnaíba.

Do também compositor (premiado) Glauco Luz nos ficou a lembrança de Carlos Drummond de Andrade in Dicotomia. Nele, o poeta Glauco oferta a imagem que se destaca – “socos do desalento”, além duma reflexão sobre a palavra (Palavra suja) e o melhor dele, em minha opinião, Poeira de Estrelas.

BISCOITO FINO

Contista e professora, Graça Vilhena nos brinda com quatro “biscoitos finos”, (diria Oswald de Andrade) da sua “oficina da palavra” (apud Cineas Santos): Poesia; Rua da Glória (ao Paulo Machado); O Garrafeiro (para Cineas Santos) e Carpete de Cordas. Graça Vilhena tematiza a Poesia e duas paisagens, geográfica e humana – no poema Garrafeiro.

Ficaram em mim as imagens: “Cerzindo os dias”, “pescar piabas no Poti”, “piabas prateadas nas garrafas”, “aquele instante que o tempo não deixa envelhecer” e “os dias são feitos de um longo esquecer”. Graça Vilhena é uma das melhores poetas brasileiras.

Admiro ainda sua parceria poética com William Melo Soares, no belo e clássico Passo a Pássaro (poesia, s. d), que tem capa de Paulo Moura, apresentação de Cineas Santos, de Rubervan Du Nascimento, e posfácio de Héctor Pellizzi.

Em tempo: aonde anda Héctor Pellizzi? Ele escreveu um miniensaio sobre o meu livro O Suicídio da Mãe Terra (contos, 1980), que eu vou publicar na segunda edição.

CAMINHO CRUZADO

Halan Silva vem na sequência, homenageia Charles Baudelaire, com a tradução do poema Remorso Póstumo. Mas, o poema sem título, em três partes, de Halan Silva, em Baião de Todos, é melhor que o traduzido do poeta francês. Que me perdoe o genial Baudelaire.

A poeta seguinte é Jasmine Malta. Arte-educadora, entre outras prendas, Jasmine faz Teresina de musa num poema, fala do calor e das “antigas lavadeiras”, que decoram a paisagem fluvial da Cidade Verde (ainda é?), que virou metrópole de concreto na passagem do século XX para o XXI.

Time is time é belo. Jasmine confessa noutro: “Eu gosto de homem que tem cheiro de homem.” / “O Homem que desconcerta os passos /quando cruza meu caminho”.

João Batista sequencia com quatro poemas: olhadela; vovó lavadeira, e enguias. O quarto, dias de brisa, tem um verso sublime: “a doçura de outros quintais”. E por falar em quintais, os quintais de Teresina do meu tempo desapareceram, as casas antigas foram demolidas e os quintais se transformaram em estacionamento. Concretados.

De João Batista sublinho ainda as imagens “o marulho dos teus olhos”, “coisa que o vento aluga e leva”, e “sem a pressa do repouso”. João Batista é um poeta atuante, produtor cultural e professor.

KEULA ARAÚJO

O alfabeto continua em movimento in Baião de Todos. Keula Araújo é a sequência. Organizou a coletânea com Cineas Santos. Keula também é professora e arquiteta. Dos seus poemas destaco o belo Do Amor, tem imagens como “sob o sol imorredouro/ da vontade”.

Para a poeta, o amor destrói os cárceres. Cantigas do Sem-Fim é um poema prenhe de ternura/ imagens – “jeito desarrumado /do jeito de respirar”, “um amor cru, mal passado/que não foi, nunca será”.

Teu Reino tem um verso para mim comovente: “Rompi com as horas / trespassadas de espera”. Keula Araújo é surpresa comovente entre os poetas piauienses que eu ainda não conheço pessoalmente.

KILITO TRINDADE 

O poeta seguinte É Kilito Trindade, vive hoje em Brasília. Ele também é produtor cultural e meu amigo. Kilito Trindade, uma doçura de ser humano.

In Baião de Todos Kilito Trindade publicou um poema sem título (ou dois?) que contextualiza “Eu bala perdida”, e o segundo “Apalavra chave desapareceu. A palavra (chave) AMOR”.

Também dele os poemas Anima, seguido doutro destitulado, que louva Guimarães Rosa: “É preciso sofrer depois de ter sofrido, / e amar, e mais amar, depois de ter amado”. Kilito é uma das realizações das promessas poéticas. Recita bem, à risca, no pulsar do planeTerra.

O poeta seguinte é Laerte Magalhães, também professor, tem quatro livros publicados. Dos seus poemas de Laerte destaco: Oração, e Das Dores, têm dicção bem humorada, de apelo ao imaginário auditivo. Os demais – Percussão, e Puta Poeta – tematizam a música, a dança. Eros é convocado.

SONETOS

Lara Matos dá continuidade, duma dicção poética de visão de mundo afiada, um olhar consciente na ponta da língua. Publicou os poemas Riscos, Mancha, e Ofélia.

Diz ela, poderosa: “Mas minha linha de vida curvada / como minhas costas / pela tenacidade dos sem-sorte/ recita uma canção há muito sabida”. E “Amo tanto que as palavras/ faltam/ Meu corpo cansado apenas / sussurra uma cantiga”... Evoé, Lara Matos.

O poeta-médico Leandro Fernandes é a sequência, com Soneto da Saudade, que se destaca entre o também soneto Chapada do Araripe, e o poema Cantiga.

BICICLETAR

Outra surpresa é Lívia Maria, 17 primaveras. Tem muito feijão-com-arroz pela frente. Entre outras observações que podem acontecer, destaco:

“Amar é ter uma bicicleta / mesmo morando no primeiro andar”, criticando “o amante visionário / embriagado pelo vinho da nudez e da loucura” Para Lívia Maria. “o poema é um vazio / no rosto indignado do poeta”. Vamos que vamos, Lívia.

Lucas Rolim é a continuidade, com os poemas o grande leão, louva-deus sobre a folha. o lobo, os caneleiros, a formiga e Terrários. Machado Júnior é o próximo, ele também é compositor, músico e publicitário. São dele os poemas Dom Quixote (para Flávio de Castro, in memoriam), Fé, Bela, e De Tudo um Tanto.

MARLEIDE LINS

Minha amiga Marleide Lins é a sequência alfabética. Também editora, vários livros publicados aqui e no exterior. Lirismo Antropofágico e Estações de Mim a meu ver sem gorgulho. Dor dos Deuses é seu terceiro trabalho nesta edição. A poeta Marleide está na 1ª edição de Baião de Todos, livro que a Avante Garde assina a programação visual.

Continuando a letra M, depois de Menezes y Morais - José Menezes de Morais - (não vou falar de mim mesmo), que publica o poema Domicilio Inviolável (pequeno elogio da rebeldia musical), entra em cena Nelson Nunes, com os poemas dignos deste nome – A miséria abunda, Na terra do sol, e Clarice. Nelson Nunes é advogado, tem vários livros de poesia publicados.

PAULOS

Quem aparece depois é o também professor, pesquisador, letrista, jornalista premiado Paulo José Cunha, meu amigo, com os poemas (dignos deste nome) Substâncias, Moto perpétuo (para Paulo Cunha, neto), Agora, e Chegue: “Apenas chegue/ e diga alguma coisa em meu ouvido/ como se nunca tivesse saído”.

Paulo Machado é o poeta seguinte: defensor público, historiador e contista. Assina in Baião de Todos os poemas Canção de Amor e Morte, O Rio (para o poeta Cineas Santos), e Cotidiano 2 (para Durvalino Filho). Nutro ternura e admiração por Paulo Machado, morei um tempo no mesmo bairro dele em Teresina, cidade que o poeta também transformou em musa, com belos poemas sobre algumas de suas.

Paulo Machado tem dois livros que considero pequenas obras-primas: Tá pronto seu Lobo, e A paz do pântano. Na sequência da letra P, o poeta meu amigo Paulo Moura, também chargista, compositor, designe gráfico, parceiro do meu compadre querido Cineas Santos no livro Aldeia Grande (1992).

Lembro-me dum bate-papo acervejado que eu e Paulo Moura travamos, numa mesa de bar em Teresina, ele criticando uma canção dos Beatles (Here comes the sun, de George Harrison), falando mal da letra – “arte pela arte” – e eu defendendo a declaração de amor à natureza: “Aqui chega o sol”.

Paulo Tabatinga encerra a letra P. É da nova geração de poetas piauienses que ainda não apertei a mão. Dia Claro, Meu poema, Província submersa e Crachá liberal são poemas poderosos. O olhar crítico do poeta sobre o cotidiano humano e geográfico também transborda ternura. Aleluia!

MUSA ESQUECIDA

Rodrigo M Leite é outro nome da nova geração de poetas piauienses. Ele usa o formato fanzine e as redes sociais para divulgar Poesia. Dele e de outros poetas. Ainda não o conheço pessoalmente, só via e-mail, mas aprendi a admirá-lo, por esta e a qualidade estética do seu trabalho.

Rodrigo M Leite edita um blog, a musa esquecida, no qual resgata poemas que têm a Capital piauiense como tema. In Baião de Todos, tocou-me os poemas a casa rupestre (“a casa é centenária / mas está viva/ e / comunica perguntas / ao morador”) e café art bar, do qual cito estes versos: “da tarde que segue nervosa / homens surgem suados / carregados de preocupações / a tarde é consumida dentro de um café”).

RUBERVAN DU NASCIMENTO

Encerra a letra R, Rubervan Du Nascimento, poeta premiado, meu amigo, do qual também sinto saudade das nossas conversas, dos nossos agitos culturais (paralelos) com F. Eduardo Lopes, William Melo Soares, Miguel Soares (Jorbacilomar), os saudosos Josemar da Silva Neres, o poeta Zé Magão etc.

Rubervan Du Nascimento também rompeu as fronteiras nordestinas. Tem quatro livros publicados, entre os quais A Profissão dos Peixes (poesia, 1993). Ele migrou do Maranhão para Teresina, e, da musa tórrida advir (com licença de Mário Faustino) retirou para São Paulo. Rubervan nos presenteia com 4 Poemas Dispersos, dos quais me perseguem as imagens “ferida dos dias”, “na boca em êxtase”, e “da janela dos dentes”, para falar de cenas bucólicas, urbanas, briga de casais etc.

SALGADO MARANHÃO

O meu amigo-irmão, compadre-poeta e letrista José Salgado Maranhão Maranhão, equilibrista da vida, vem em seguida. É outro nome nacional (e de dimensão internacional) que enriquece esteticamente Baião de Dois. Nele, o poeta-protagonista com sua envolvente dicção, plena da sua peculiar atmosfera misteriosa, me perseguem imagens:

“Oráculo de atabaque e pergaminho”, “arrimo de vozes no lugar das unhas”, “feito um caju que apodrece/mas a castanha resiste’ (genial). Salgado também é coleciona prêmios literários – Jabuti, Academia Brasileira de Letras. Salve, salve poeta. Que lhe venham outras láureas.

Baião de Todos me apresentou Thiago E, também é músico e professor. Tem livro publicado e CD gravado. Dele, se cristalizaram em mim as imagens poéticas “a língua é um molusco, já não sabe se é carne ou um soluço – sem concha, se reinventa no escuro”, e “o mar sempre guarda um jardim dentro do bolso”.

PAREDES DO VERSO

Na letra V, Vagner Ribeiro nos remete a Virgílio, pela voz de Fernando Pessoa (“viver não é preciso” e também homenageia Guimarães Rosa, citando o clássico Grande Sertão: Veredas. A sequência é a artista plástica, professora, contista e poeta Vanessa Trajano. Ela surpreendeu-me com o poema Impronunciável. Perfeito, sem gorgulho.

De Vanessa Trajano também me sensibilizaram as imagens “tem horas que até o impulso é tarde”, “nas paredes do verso”, “amei cinco homens sem retorno”, “o poema permanece in vitro” e “na angústia dessa busca”.

WILLIAM MELO SOARES 

O último autor deste Baião de Todos é o meu amigo-irmão William Melo Soares, um dos melhores poetas brasileiros da nossa geração. Wiliam nos presenteia com as pérolas pedra de fogo, Insônia, e Indomáveis. Também letrista, William tem vários livros publicados. Confessa que o seu tempo “é pedra de fogo”, que a mariposa “me dá lição de silêncio”, “no vasto campo da fala”.

Além da sua poesia em si, o flagrante delito autoral que ilumina de ternura e civilidade, William, a meu ver, é uma personificação do ser Poeta. Pela sua sabedoria quase ingênua, pela sua simplicidade, pela sua humildade, pela intuição e leveza. Explico melhor.

Cito dois exemplos históricos, envolvendo quatro poetas: para Carlos Drummond de Andrade, a materialização do poeta era Vinicius de Moraes. Para Mário Quintana, a personificação do poeta era Cecília Meireles. É claro que existem muitos poetas (de geração e geração) que se enquadram neste perfil.

William Melo Soares é um deles. Graças a Deus.

*Menezes y Morais
Poeta, escritor, professor, jornalista e historiador piauiense. 12 livros publicados (mais 12 na gaveta), entre os quais o romance A Íris do Olho da Noite (Thesaurus), Por Favor, Dirija-se a Outro Guichê (teatro em um ato), na Micropiscina da Lágrima Feliz (poesia), A Luta é de Todos – História do controle dos gastos públicos no Brasil (Unacon), com Teresinha Pantoja.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Neto, Torquato



um trago não é a medida certa
de cada flor
a fina flor mafrense
nasce

um olhar ao longe não é o alvo
de cada face
a tristeza tece a toada
vai

uma sacada no pleno desafio
de cada palavra
o verso virado volátil
pinta

um pulso não é o mapa na navalha
de cada mina
água açúcar anilina
turbina

um trago não é a medida certa
de cada flor
a fina flor mafrense
orla teresina.

Emerson Araújo
(In Címbalos, Lutas e Olhares - Quimera - 2015)

terça-feira, 12 de abril de 2016

Carta aberta para Airton Sampaio de Araújo


Meu dileto, Airton Sampaio de Araújo,

Bom dia!

Tomei a iniciativa de escrever esta carta(mesmo usando todos os clichês das epístolas) para te desejar saúde e paz diante do quadro de doença que você foi acometido nos últimos dias e que eu acabei sabendo por outros amigos comuns.

Sem muitas delongas, espero que quando você tiver a oportunidade de ler esta carta já esteja gozando de saúde plena para o bem teu, da tua família querida e que possa vencer o diabetes e suas extensões plenamente. Lembre-se, também, corre no meu sangue esta maldição que me tirou alguns prazeres e que vivo em alerta constante contra as traições desta patologia covarde.

Mas, dileto, Aírton, o que me moveu, também, na escritura deste texto cheio de defeitos de linguagem pelo uso dos clichês e repetições de toda ordem foi a necessidade de reconhecer que do ponto do vista ideológico nos afastamos e não quero adentrar nas tuas razões e nem nas minhas para isso. Uma vez te disse que o PT e seus governos, Cuba e os irmãos Castro não nos uniam, mas que a educação e a literatura, sim e continuo com esta convicção apesar das nossas opiniões divergentes na política.

Reconheço que você, meu dileto, Airton, continua sendo o intelectual mais profundo da minha geração, tanto no fazer educacional como no fazer literário e por isso tem o meu respeito, apesar das nossas diferenças no plano ideológico o que é muito pouco para rupturas eternas entre amigos. Não te pedirei perdão pelos dissabores a toque de uma palavra ou frase aqui e ali mais áspera entre nós nos últimos tempos, porque não se deve colocar na mesa o pedido de perdão sobre convicções. Mas fica o meu respeito intelectual por você naquilo que nos tem unido ao longo de décadas.

Finalizo,  reafirmando o meu desejo pessoal como amigo de querer que você se levante deste leito de hospital com as melhores condições físicas e intelectuais para vencermos, quem sabe, a maldição do diabetes e suas extensões que volta e meia nos surpreende.

Abraços,

Emerson Araújo

Tuntum, 12 de Abril/2016.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

terça-feira, 22 de março de 2016

Carta aberta a kenard Kruel Fagundes


Meu caro, Urso Hibernador,

Bom dia!


Tenho acompanhado, nos últimos meses,  a tentativa dos vira-latas fascistas de quererem usurpar o poder legitimamente eleito pela maioria do povo brasileiro e entregue mais uma vez a Dilma Rousseff em outubro de 2014. E tive acompanhando, também, o teu silêncio inicial diante das investidas dos golpistas(mídia golpista ou o quarto partido da oposição, poder judiciário venal, partidos corruptos e a classe média que vai aos restaurantes aos domingos), e compreendi este teu afastamento por questões de saúde, justificável do ponto de vista da nossa amizade eterna.

Mas fiquei alegre mais ainda ao ver, nas últimas semanas, teu empenho e tua militância aflorarem magnífica e necessária pelas qualificações intelectuais, pelo belo texto e pelas argumentações sempre pertinentes para desespero destes vira-latas que pululam no nosso amado Piauí, nossa sempre acolhedora Teresina novamente. E você como articulista em favor de uma bela causa tem meu apoio incondicional diante das investidas desta canalha transvertida de intelectualismos de gabinete e outros afins.

Meu caro, Urso Hibernador, devemos lembrar, também, que fomos enxotados  do Partido dos Trabalhadores pelos neopetistas do Piauí por percebermos que a nossa utopia política cairia  nas  tentações do poder como caiu e não imputa sobre mim, você e tantos outros companheiros nenhum peso de consciência pelos desvios ideológicos e morais que estes petistas impuseram a nossa utopia. Mas o momento não é de ladainhas de arrependidos e nem de lamúrias sobre o leite derramado como dizia prontamente meu avô paterno João de Deus Alves, músico dos melhores e antiudenista ferrenho, o momento é de uma causa maior que os vira-latas revanchistas não querem perceber, a luta, digo, a nossa luta agora ultrapassa o PT, Lula, Dilma e a esquerda, é a luta pela manutenção da democracia e da liberdade com "L" maiúsculo, é nela que devemos fincar "pé, mãos, coração e face" mesmo com as debilidades físicas que adquirimos nos nossos exílios particulares: eu, em Tuntum, você em Tutoia onde construiu sua ilha, seus novos sonhos.

Não se preocupe, Velho Urso Hibernador, estamos a postos contra a canalha golpista, contra os vira-latas revanchistas e contra os que querem o ódio destilado nas esquinas da nossa amada pátria brasileira, negra e mulata, crendo no que diz o poeta campesino Pedro Casaldáliga na sua Canção da Foice e do Feixe:

"Creio na Internacional
das frontes alevantadas,
da voz de igual a igual
e das mãos enlaçadas...
E chamo a Ordem de mal,
e ao Progresso de mentira.
Tenho menos paz que ira.
Tenho mais amor que paz."


Conte comigo sempre.

Abraços,

Emerson Araújo

Tuntum(MA), Março/2016

sexta-feira, 18 de março de 2016

Nortristeresina: UM DOCUMENTO DE OUSADIA DE UMA GERAÇÃO



por Chico Castro *

O CD Nortristeresina lançado no ano passado num clima de festa em Teresina foi o mais importante registro fonográfico surgido no panorama da Música Popular Brasileira de matriz piauiense. Embora encoberto por mais de quatro décadas desde a famosa viagem empreendida por um grupo de jovens a Londrina (PR), em 1974, para uma apresentação na famosa cidade no interior do Paraná, o evento continua vivo na memória coletiva do meio artístico local.

O largo período de temporalidade não empalideceu a importância que o show, agora disponibilizado para o grande público em forma de disco, teve para o que de melhor existe na definição da cultura contemporânea do Estado. Pode-se afirmar que a modernização da cultura piauiense se deu em vista da implantação do Projeto Piauí na primeira gestão do ex-governador Alberto Silva.

SHOW DIGITALIZANDO

A linha de produção do CD ficou sob os auspícios do médico e produtor Viriato Campelo e do também médico e cantor Rubens Lima. Mas, inicialmente, o trabalho remonta ao ano de 2011 quando uma fita K-7 original caiu nas mãos do músico e empresário George Henrique Araújo Mendes que, com o auxílio luxuoso do violonista e compositor Geraldo Brito, pode dar nova amplitude ao show digitalizando-o e dando-lhe nova roupagem sonora e técnica.

Foram igualmente recuperadas fotografias antigas, falas, textos e uma reconstituição possível da época, cujo cenário artístico não perdeu sua verdadeira vitalidade e ilustração, mesmo decorridos um tempo considerável e um longo espaço de fermentação em que todo o avanço cultural decorreu brilhantemente daquele período até os dias atuais.

PROJETO AUTORAL

Ao ouvir as nove músicas de que se compõe o disco, experimentei outra vez o inusitado prazer de estar diante de um documento de ousadia de uma geração que se dispôs a fazer, do que simplesmente possuía, um projeto autoral, num ambiente teresinense do início da década de 70, marcado por shows que tinham como referência os grandes hit’s da MPB e da música internacional.

Em sentido contrário ao senso comum, Menezes y Morais, Pierre Baiano,Laurenice França, Assis Davis, Paulo Batista, Albert Piauhy Piauí, Márcio Thé, Fátima Lima e o casal 20 José Inácio da Costa & Catarina de Sena são personalidades oriundas da mesma fornalha imaginativa e luminosa, não obstante a presença de outras figuras anteriormente emblemáticas como Silizinho e Walter Sampaio, Raimundo Moura e Levi Moura, assim como o conjunto musical Os Milionários, que também tiveram um papel preponderante na música popular piauiense. Se bem que não pode ficar de fora o som alucinante dos Brasinhas e Metralhas, dos Lord’s e The Dândis, dos Fantasmas e de Barbosa Show Bossa, dentre tantos outros grupos que animavam a badalada noite teresinense.

OUVIR E REFLETIR

Nortristeresina é um CD para se ouvir e refletir, pois ele traz à luz do século XXI a fidelidade e o roteiro do show realizado em Londrina há mais de quarenta anos. O referido espetáculo e a destemida viagem abriram um link criativo escancarando um estandarte para as gerações futuras, que só décadas após tomaram conhecimento pela boca dos outros a respeito do poder jovem dos maravilhosos e psicodélicos anos 70.Não custa nada lembrar que o celebérrimo single Space Oddity, do recém-falecido andrógino David Bowie, um selo distintivo da contracultura internacional, alcançou um estrondoso sucesso nas ondas de rádio de todo mundo em 1969!

O que impressiona, depois de tanto tempo, é que a agitação underground feita no Piauí, na música e na poesia, a priori, estava sintonizada com o movimento de igual jaez que se realizava no eixo Rio-São Paulo na aurora dos anos 70, ali praticado por artistas que se tornaram monstros sagrados da cultura brasileira. O disco é uma grande chance para afinar os ouvidos desafinados deste início barulhento de 2016.

Chico Castro, 62 anos, é poeta, professor e historiador.